sexta-feira, 10 de abril de 2015

É...

Rapaz, presta atenção:
estou admirado
com tua falta de cuidado,
teu desprezo pela situação;
tua preocupação
apenas com o teu umbigo.
E eu, quem diria,
que estive ao teu lado
no certo e no errado,
não acreditaria
se não acontecesse comigo.
Dói, por não esquecer
e sentir saudade
daquela amizade
que imaginei ter,
da parceria suposta...
Mas o que fazer
se a reciprocidade
não é tão verdade
como pensei ser?
Será que, por motivo algum,
és apenas mais um
que me deu as costas?

domingo, 5 de abril de 2015

Sonet d'Arvers (Felix Arvers)

Aprendi este soneto nas aulas de francês do ginásio. Tínhamos que decorá-lo para recitar perante a turma. Nunca o esqueci.


Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternel en un moment conçu
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dû le taire
Et celle qui la fait n'en a jamais rien su.

Hélas! J'aurai passé près d'elle inaperçu
Toujours à ses côtés et pourtant solitaire
Et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre
N'osant rien demander et n'ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l'ait faite douce e tendre
Elle suit son chemin, distraite e sens entendre
Ce murmure d'amour élevé sur ses pas.

À l'austère devoir, pieusement fidèle
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle
"Quelle est donc cette femme?" - et ne comprendra pas.


Uma tosca tradução:

Minha alma tem seu segredo, minha vida o seu mistério
Um amor eterno num momento concebido.
O mal é sem esperança e então eu me calei
e ela que o fez nunca soube nada

Ai de mim! Terei passado perto dela desapercebido
sempre ao seu lado e, no entanto, solitário
e terei cumprido meu tempo sobre a terra
não ousando nada pedir e não tendo nada recebido.

Ela, a quem Deus fez doce e terna
seguirá seu caminho distraída e sem entender
este murmúrio de amor enlevado em seus passos.

E, mais tarde, piedosamente
ela dirá lendo estes versos repletos dela:
"Quem será esta mulher?" - e não compreenderá.

(Lindo, né???)

Cuidado com seus pedidos

Pedi tanto ao Universo
que me movimentasse o coração
e, como tudo que peço,
ele, enfim, me atendeu.
Mas não da forma pretendida
porque, queria eu,
uma nova paixão bem sucedida
e não o insucesso da velha paixão.

Resignação

Talvez, agora, eu possa entender
que nada se perdeu.
Não há derrotados,
ninguém venceu.
E se não foi como esperado
é porque não era mesmo para ser.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ei, John

(John Lennon foi assassinado no dia 08/12/1981 em frente ao prédio em que morava 
 em Nova York. O assassino dizia-se seu fã)


O que fizeram contigo,
meu amigo?

Ouvi tuas canções,
li teus poemas,
forjei minhas opções
a partir dos teus temas...

Usei cabelos compridos,
óculos com lentes redondas.
Cantei  tuas baladas,
com o meu “inglês de ouvido”...
E agora, me responda,
porque não entendi nada:

o que fizeram contigo,
meu amigo?

Eras prepotente,
te comparastes a Jesus.
Mas, tal e qual,
pensavas além do teu tempo.
E então, um sujeito demente,
assumindo o papel da cruz
e não podendo te ser igual,
tirou-te a centelha, em breve momento.

Ele que se dizia seu fã,
como Pilatos ao Cristo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Alguns conselhos




Brindemos à saúde
porque sem ela
a vida, que é bela,
se torna um penar;

Festejemos a amizade
pois que amigos,
muito mais que inimigos,
são difíceis de achar;

Ganhemos muita grana,
pode ser de bom tom,
porque tudo que é bom
é preciso pagar;

Curtamos a paz
tão necessária
nessa terra ordinária
de maldade exemplar.

Vivamos o amor
enquanto ele existir
pois não adianta insistir
quando ele acabar.

Gozemos o sexo
com paixão e ardor
sem limites ou pudor,
até o vigor expirar.

Bebamos cerveja (ou vinho, ou whisky, ou cachaça)
mas só por prazer,
sem vício ou dever.
Apenas por gostar.

Enfim,
Celebremos a vida
esperando que a morte,
com um pouco de sorte,
demore a chegar;

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Teatro da vida (ou Momentos de insônia)

No fim do dia,
quando a noite chega
e a mente esvazia
da  diária refrega
vem  a melancolia
a quem o coração se entrega.

Se a cabeça descansa
junto ao travesseiro
o pensamento se lança
- este frágil guerreiro –
em cada nuança
do teu dia inteiro:

A oportunidade perdida,
o erro cometido,
a mágoa sentida,
o que não fez sentido,
o sentido da vida,
o coração ferido...


Enquanto a mente devaneia
uma pergunta permeia
e não quer se calar:
o que me resta conquistar,
aonde tenho pra ir,
o que me falta fazer,
o que ainda tenho que ser?
E se a resposta demora
é porque tá na hora
de fechar o pano e partir...

terça-feira, 16 de julho de 2013

O travesseiro

Ah, o travesseiro,
velho companheiro
de tantas divagações:
Soluções úteis,
devaneios ousados,
pensamentos fúteis,
sonhos frustrados.

Ah, o travesseiro,
antigo parceiro
de inúmeras libações.
Mudo confidente
que ouve calado
e se queda silente
enquanto sonho acordado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Papai


(Hoje, dia 8 de outubro de 2012, meu pai, o "seu" João, completaria 86 anos, se vivo fosse.
O texto abaixo foi escrito em 21 de abril de 1989, dia do seu falecimento.
Fica a singela homenagem:
Parabéns, papai. Saudades!)

Fico filmando nossas vidas,
minhas lembranças do passado:
o mais distante, eu, criança,
na tua mão dependurado
feliz por te ter ao meu lado.

Depois, você foi embora,
fiquei em meu mundo vazio;
senti tua falta, teu afeto,
mas tinhas outra vida a viver.

Mais tarde, nos reaproximamos,
tivemos nova relação;
ajudaram a te reaver
os meus filhos, teus netos.

Depois, a criança era você
e eu te conduzia, pela mão,
ao meu lado:
tornei-me o rabugento, o chato,
em meu excesso de cuidado.

Hoje estás aí, deitado,
tranquilo, inocente, dormindo;
e eu me pergunto:
“Onde andarás, meu amigo?”

Queria tanto estar contigo...

sábado, 21 de julho de 2012

Para Flávia e Marco

(a ordem do título é cronológica...)


Fiz-vos com tal zelo
que, apesar do meu modelo,
chegastes onde chegastes.
Não me surpreende
tendo em vista vosso permanente
esforço e dedicação (inteligência à parte).

Repito em alto tom:
nem tudo que é bonito é bom;
nem tudo que é feio é ruim.
Vós sois a grande exceção,
belos e de bom  coração
como eu gostaria em mim.

Vibro com o que tens conquistado
orgulho-me, enfim,  do resultado
obtido, entre várias opções.
E afirmo, risonho:
Em vós realizo meus sonhos,
em mim sofro vossas decepções.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Recuperação

Meu presente é a tua saúde
e o teu retorno para casa
que já anda meio vazia.
E, então, que tudo mude
e você venha e faça
incendiar essa cama fria.

Sadia!

O relógio (de Cassiano Ricardo)

Li esse poema quando garoto (era um dos textos do meu livro de portugues) e fiquei tão impressionado que nunca mais o esqueci:

Diante de coisa tão doída,
conservemo-nos serenos:
cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma parte
do "não-ser" e não do ser
pois desde o momento em que se nasce
já se começa a morrer.

Viver mata


Beber?! mata!
Fumar?! mata!
Transar?! mata!
Drogar?! mata!
------------------
Viver mata!!!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Velhice?!



Sim, talvez eu seja velho
porque não me sinto parte
dessa nova estrutura social;
porque não me espelho
nessa imagem inerte
assumida pela sociedade atual.

Sim, eu sou do tempo
em que questionávamos a ditadura
e clamávamos por nossos direitos.
Alienávamos ou aderíamos ao movimento
contra a chamada “linha dura”
e o tal “milagre brasileiro”.

Naquele tempo, vi Garrincha, vi Pelé, vi Didi.
Acompanhei os Beatles nascendo,
assisti o homem pisar na Lua,
até Elvis Presley eu vi...
Mas também vi o pau descendo
em quem ousasse protestar nas ruas.

Ah, aquele tempo em que, para dançar,
era preciso um homem e uma mulher
e música lenta pra ficar agarradinhos.
Tempo dos sarrinhos ao luar,
do “bem-me-quer-mal-me-quer”,
das mãos dadas e dos beijinhos.

Aliás, era um tempo
em que só existiam dois sexos
que se entendiam muito bem
e que se identificavam sem contratempos.
Nada, como hoje, tão complexo
para se determinar o sexo de alguém.

Tempo em que malandro era bandido
que briga de rua era na mão,
que se jogava futebol na rua.
Tempo em que família fazia sentido
e que o máximo de tesão
era foto de mulher nua.

Líamos, pois livros eram diversão;
às vezes um cinema no fim de semana
depois do almoço de carne assada com espaguete.
Não ligávamos para a tal televisão
e era “super-bacana”
não sermos escravos da internet.

Brinquei na chuva, bebi água na torneira,
tinha árvore no quintal,
comi fruta no pé;
Em junho, pulávamos fogueira,
soltávamos balão: não fazia mal!
Estourávamos bombinha e buscapé...

Em setembro,
Dia da Criança, São Cosme e Damião,
disputávamos doces na rua.
Bem que eu me lembro
cheio de doces na mão
a cara suja e as costas nuas...

É, creio que sou velho sim.
Mas trago comigo tantas lembranças
e ainda tenho saúde e paz.
Que bom, ser velho assim
e ainda poder ter a criança
que alguns não tiveram jamais...

domingo, 13 de novembro de 2011

Seis Marias

A primeira Maria,
Maria de fé,
comia e bebia
de olho na Sé;
corria pra igreja,
quando dava pé,
 e a missa assistia
com os olhos no chão.

A segunda Maria
da zona a primeira
puta, a vadia...
De qualquer maneira,
boa sertaneja,
na luta aprendera
e dançava, e comia
e transava no chão...

A terceira Maria
não era santa:
fumava e bebia
e gostava de samba.
Arrota e pragueja
na roda de bamba,
no meio da cantoria
e cospe no chão.

A quarta Maria,
casada com o Zé,
em casa vivia,
recatada que é.
Da diária peleja
de depois do café,
a que mais lhe doía
era limpar o chão.

A quinta Maria,
Maria estragada,
mas ninguém esquecia
de tão cobiçada
a rara beleza
da face rosada...
agora jazia,
dormindo no chão.

A sexta Maria,
senhora distinta
e, quem diria,
dona de quintas,
cavalga e veleja,
fotografa e pinta
e pisa à valia
a terra do chão.

Seis Marias,
seis estórias,
seis vidas vazias,
seis vãs memórias.
Terminam – ora veja!
sem louros, sem glória,
numa cova fria,
enterradas no chão. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Que fase é essa?

Nossa, que fase é essa?

Quando aparenta que vai,
acontece um “prá trás”
e tudo acaba de repente.
Pareço um barco que sai,
perde a direção do cais
e deriva, mercê da corrente.

Lá se vão dois anos.
Dois anos sem trabalho
me abalaram a confiança;
minha reserva de ganhos –
essa, já foi pro caralho:
esgotou-se minha poupança.

Velho, já não tenho mercado,
ninguém quer minha “experiência”
nem a minha “sabedoria”.
Velho e desempregado!
Eis a síntese da decadência,
da tristeza e da melancolia.

Nada que experimento fazer
funciona;  tudo dá errado,
mas não sem antes me animar.
Com a frustração, vem a vergonha de ser
esse sujeito fracassado
que reluto tanto em mostrar.

Vivendo de favores dos filhos.
de “bicos” e de promessas,
me angustio e me entedio,
me torturo e me humilho...
Eu, que já tive à beça,
hoje sou um saco vazio...

Vazio de sonhos,
vazio de esperança,
vazio de fé!
A sorte, eu suponho,
foi uma parceira de dança
e eu lhe pisei o pé.

O tempo passa,
o Sol brilha, a chuva cai...
mas nada muda em minha vida.
Eu rio (é, acho graça),
ao lembrar o que diria meu pai
em situação parecida:

“Homessa!!! Que porra de fase é essa???”

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Fim de noite

A sala vazia,
o livro no colo,
o som baixo,
a sensação de noite acabada.
Sobre a mesa,
largado,
o porta-retratos
de onde, antes,
você me sorria.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Angela Goulart

Angela Goulart, artista plástica, certa vez leu meus poemas.
Pareceu ter se interessado e, dias depois, mostrou-me alguns trabalhos que realizara, a partir do que os "escritos" lhe inspirara. Isso aconteceu em 1986.
Ainda tenhos aqueles trabalhos, embora não consiga mais identificar qual arte se refere a qual "escrito".
Eu gostaria de publicá-los neste blog, junto com os poemas, mas estou evitando fazê-lo sem a prévia autorização da autora.
Só que perdi o contato e, apesar de todos os recursos da internet, não consigo encontrá-la.
Onde anda você, Angela?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O fim


Tornei-me um sujeito obscuro,
me humilho, me degrado,
me torturo
buscando respostas
que não sei responder,
sobre assuntos que desconheço.

Já não consigo dormir
mas mantenho meus sonhos, acordado,
e, sem ter onde ir,
as feridas expostas
para quem quiser ver,
buscando, talvez, o recomeço.

Despido, entre meus humores,
sangue, suor, fezes, urina,
relembro antigos amores,
tempos de relativo sucesso
quando tinha mais do que precisava,
e menos do que queria ter.

Rezo a deuses em quem não acredito
pedindo que mude minha sina
e me refaça jovem,  rico e bonito
- é só isso o que peço!
Que me permita o dom da palavra
e a completa realização do ser.
            
Mas a vida me trancou nessa cela escura,
          me humilha, me degrada, me tortura...

sábado, 27 de agosto de 2011

Pra quê?


Pra que brigarmos assim,
se isso não leva a nada,
se sei que gostas de mim,
se sabes que és minha amada?
Pra que cada um pro seu lado,
pra que os caminhos diversos,
pra que o evitar de sorrir,
pra que a fronte cerrada?
Se sempre te tenho falado
e insisto nestes versos,
que não temos onde ir
se não formos de mãos dadas?